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Cidade histórica de Sabará - Minas Gerais.

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Cidade histórica de Sabará - Minas Gerais.

Muitas eram as lendas que habitavam o imaginário dos primeiros exploradores que penetraram o Brasil. No território onde hoje está Minas Gerais, um lugar em especial chamava a atenção e atiçava a cobiça daqueles homens. Uma serra de nome Sabarabuçu, repleta de ouro e pedras preciosas das mais diversas cores. Foi ela um dos principais objetivos das expedições, um troféu à espera de seu dono. Quem encontrasse Sabarabuçu encontraria a glória.

Uma linha separa o sonho do real. Se Sabarabuçu era a lenda, Sabará se concretizou na mais pura realidade. A cidade nasceu do ouro, farto em seus rios e minas, responsável pela gloriosa saga dos bandeirantes e da emergente sociedade mineira. O metal amarelo motivou guerras, movimentou paixões, alimentou intrigas e vaidades. Sabará é um retrato fiel de um dos períodos mais fascinantes da história do Brasil. Esta história é contada pela arquitetura barroca de suas igrejas, pelas minas escondidas em suas montanhas, pelas bateias e outros instrumentos rudimentares - utilizados na extração - ainda hoje encontrados no fundo dos rios. Características como estas firmam Sabará como destino obrigatório no circuito turístico do ouro em Minas Gerais.

Igreja de N.Sra. do Carmo

Localizada em um majestoso vale, no encontro do rio das Velhas com o rio Sabará, a cidade desperta o interesse de turistas e estudiosos do barroco. Nela é possível perceber as várias fases experimentadas por este movimento artístico, que encontrou em Minas sua mais pura e autêntica tradução. Todo este acervo se encontra muito bem preservado, dando uma idéia precisa da transformação acarretada pela descoberta do ouro. Tamanha era a quantidade do metal que não seria exagero imaginar que seus rios tinham fundo dourado, remetendo a uma visão idílica, digna das mais saborosas fábulas. De repente tudo mudou. As matas deram lugar ao casario, das pedras arrancadas das montanhas foram calçadas ruas e estradas, da fé vieram as igrejas e do poder se extraiu a vaidade, a arte e a traição. Visitar Sabará é viver na realidade o que um dia foi lenda.

Tão logo os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, tímidas expedições começaram a explorar o território. Já em 1503 Américo Vespúcio organizou a primeira incursão conhecida, partindo da cidade de Cabo Frio, no Estado do Rio de Janeiro. Várias outras se sucederam, aumentando a frequência no decorrer dos tempos. Não se sabe ao certo quando os primeiros exploradores alcançaram a região de Sabará. Segundo o historiador Zoroastro Viana Passos, esta data teria sido 1550 ou até antes.

Muitos foram os personagens na corrida pelas riquezas que os rincões do Brasil escondiam: expedição ordenada por Martim Afonso de Souza (1531), Vasco Rodrigues (1561), Sebastião Fernandes Tourinho (1572), Antônio Dias Cardoso (1574), André de Leão (1601), Marcos de Azeredo (1646)... A "bandeira" organizada por Fernão Dias partiu de São Paulo em 1674 e tinha como finalidade alcançar Sabarabuçu, o eldorado. Fernão Dias morreu em 1681, nas proximidades de Caeté, cidade vizinha. Seu genro, Borba Gato, continuaria seu trabalho e se tornaria uma das figuras mais importantes da história de Sabará e da descoberta do ouro em Minas Gerais.

As incursões seguiam a orientação dos índios, grandes conhecedores dos recantos brasileiros. Eles contavam sobre uma terra distante, rica em pedras preciosas e ouro. A mais fabulosa serra estava lá, em algum lugar, e chamava Sabarabuçu. Era ela a maior justificativa para o imenso sacrifício de desbravar a natureza hostil. Mais que orientadores, os índios transportavam cargas e serviam de interlocutores entre os exploradores e as várias tribos encontradas no caminho.

Matriz N.Sra. da Conceição (início do séc. XVIII)

Museu do Ouro, construção do séc. XVIII

Sabará pintada por Rugendas (meados do século XIX)

Embora fracassada em seu objetivo específico, encontrar grandes veios de ouro e pedras preciosas, a "bandeira" de Fernão Dias foi importantíssima, pois criou pousos e revelou grande parte do imenso território de Minas. Seu trabalho possibilitou que as riquezas enfim fossem descobertas poucos anos depois, trazendo levas de trabalhadores à região.

Há indícios de que Borba Gato, quando chegou a Sabará, assistiu uma missa numa pequena capela existente. Segundo os historiadores, o capitão Matias Cardoso de Albuquerque teria atingido as margens do rio das Velhas anteriormente, uma vez que era líder da equipe de Vanguarda da Bandeira das Esmeraldas. Tinha como objetivo abrir caminho e preparar terreno para os demais exploradores do grupo. Cardoso de Albuquerque chegou a uma encosta fértil, abastecida por fontes de água pura.

Atlante - umas das obras-primas de Aleijadinho (Igreja de N.Sra. do Carmo)          

O lugar, batizado Roça Grande, se tornou pouso obrigatório na travessia para o sertão. É um dos mais antigos de Minas Gerais e tem importância indiscutível no surgimento de Sabará. Coube a denominação de arraial de Santo Antônio do Bom Retiro da Roça Grande até ser instituída a freguesia em 1707. O patrimônio foi doado por Manoel de Borba Gato.

A abundância de ouro alimentou a ganância e consequentemente gerou muitos conflitos. As densas florestas forneciam madeira para a construção de igrejas, sobrados, pontes... Os espaços abertos na mata se transformavam em lavouras diversas. Já em 1702 o arraial da Barra do Sabará, próximo à Roça Grande, era um movimentado centro de comércio de gado, cavalos, escravos e mantimentos, além de ser o mais populoso das Minas Gerais.

Os imigrantes que chegavam iam se estabelecendo por toda parte, formando novos povoados, dentre eles o arraial do Pompéu e o arraial do Raposo. Este último foi desmembrado em três freguesias: Santo Antônio do Rio Acima, Rio das Pedras e Congonhas do Sabará (hoje município de Nova Lima). A prosperidade fez com que o arraial de Sabará fosse elevado à Villa Real em 1711, absorvendo muitos arraiais vizinhos. A Comarca do Rio das Velhas foi instalada em 1714, com sede na vila. Sua imensa área fazia limite com Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Goiás. A posição estratégica fez da Villa Real do Sabará "o mais importante empório comercial de Minas Gerais no séc. XVIII e em mais da metade do séc.XIX". Além disso, era o maior centro de ourivesaria do Brasil, possuindo o melhor artesanato não só de alfaias sacras, como de jóias de todo gênero".

Sabará é uma das mais antigas cidades de Minas. Em suas ruas está escrita uma rica história, do tempo em que a ambição era a lei e o ouro a maior das conquistas. O centro histórico concentra grande parte deste acervo e pode ser visitado a pé. A cada esquina surpresas vão revelando os mistérios de Sabará, impressionando turistas e estudiosos.

Teatro Municipal - o segundo mais antigo do Brasil

Solar Pe. Correia, onde hoje funciona a prefeitura          

Um passeio por Sabará tem como ponto de partida a rua D.Pedro II, bem no centro. O casario dá as boas vindas com seu estilo simples e colorido. A antiga rua Direita conserva sobrados e casarões do século XVIII, como o Solar do Padre Corrêa (1773), a Casa Azul e o prédio da Biblioteca Pública Municipal. Na rua se localiza também o Teatro Municipal, o segundo mais antigo do Brasil, ficando atrás apenas da Casa da Ópera de Vila Rica (atual Ouro Preto). Sua linha arquitetônica segue o estilo inglês da época da rainha Elizabeth I. Dentre os frequentadores ilustres que estiveram no teatro, ainda em atividade, estão os imperadores D.Pedro I e D.Pedro II.

Na parte alta da rua D.Pedro II está a praça Melo Viana, com a igreja e chafariz do Rosário. Proibidos de assistirem a missa na Matriz, os negros começaram a construir, em 1768, a igreja do Rosário. O imponente prédio, todo em pedra, não pôde ser concluído, devido à decadência das minas de ouro. Mesmo inacabada sua fachada é o testemunho da força e da fé do homem negro na história de Minas Gerais. O chafariz do Rosário (1752), bem ao lado da igreja, é considerado o mais belo de Sabará. Possuía em seu frontão as armas portuguesas, que foram arrancadas por ocasião da Independência do Brasil, em 1822. Tem detalhes em pedra-sabão muito semelhantes ao estilo arquitetônico da igreja da Ordem Terceira do Carmo.

Partindo da praça Melo Viana duas opções se apresentam: descer até o chafariz do Kaquende ou seguir para a igreja do Carmo. No primeiro trajeto não deixe de visitar também o chafariz Corte Real (1809) e a igreja São Francisco de Assis (final do século XVIII). O chafariz do Kaquende é um dos mais conhecidos de Minas e data de 1757. Um costume local diz que quem bebe de suas águas sempre volta a Sabará. Parte das lendas sobre o chafariz se deve ao fato de sua água manter praticamente a mesma temperatura durante todo o ano, independente do clima. Assim como aconteceu com o chafariz do Rosário, teve as armas portuguesas arrancadas em virtude da Independência.

Ruínas da igreja N.Sra. do Rosário, da segunda metade do séc. XVIII (centro da cidade) Chafariz do Kaquende

Na direção oposta ao Kaquende, seguindo pela rua Borba Gato, chega-se a uma antiga construção batizada com o nome do famoso bandeirante. O sobrado serviu como residência, hospedaria e escola de "primeiras letras". Fundado pelo professor Herculino Carlos do Couto Lima, o colégio teve alunos famosos, como o presidente de Minas e vice-presidente do Brasil, Fernando de Melo Viana. Apesar do nome é muito provável que Borba Gato nunca tenha residido no sobrado.

Imagem São João da Cruz - Igreja N.Sra. do Carmo Oratório - acervo Museu do Ouro (séc. XVIII)

Ponte secular na estrada para o Pompéu          

Igreja N.Sra. das Mercês, capela do Pilar, igreja N.Sra. do Carmo, Museu do Ouro e matriz N.Sra. da Conceição completam o circuito pelo centro histórico de Sabará. Antiga Casa de Intendência e Fundição, o Museu do Ouro é um belo e autêntico exemplar da arquitetura colonial do século XVIII. Ao entrar no museu o visitante tem a sensação exata de como era a vida dos mineiros naqueles tempos, da engenharia rústica aos utensílios e mobiliário. Outro passeio imperdível leva à igreja N.Sra. do Carmo, que guarda um fabuloso acervo barroco. Erguida em 1763 pela Ordem Terceira do Carmo de Sabará, o templo é ricamente adornado por esculturas e pinturas. Nomes como Thiago Moreira, Francisco Vieira Servas, Joaquim Gonçalves Rocha e Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) emprestaram seu talento para a confecção de verdadeiras obras de arte.

As atrações não se restringem apenas ao centro histórico da cidade. Os distritos de Ravena, Mestre Caetano e o Arraial Velho de Sant'Ana conservam relíquias em forma de igrejas, de grande importância histórica, herança da fase áurea do barroco mineiro. A formação cultural e histórica de Sabará tem no arraial de Sant'Ana um de seus núcleos pioneiros. Ali também funcionou um colégio fundado por Caetano Azevedo no final do século XIX, responsável pela formação de homens que tiveram expressiva participação no cenário político do Brasil. Para maiores informações consultar "lista de atrações".

No bairro Siderúrgica está o cartão-postal de Sabará, um dos mais importantes monumentos da fé erguidos no Brasil, conhecido no mundo inteiro. A igreja de N.Sra. do Ó data de 1717 e homenageia N.Sra.da Expectação do Parto. A festa para a santa era comemorada na semana que antecede o Natal e os cânticos das ladainhas repetiam a cada dia sete versículos, sempre precedidos por um Ó!. Daí o nome: nada mais sugestivo. É exatamente esta a exclamação de quem visita a igrejinha, dada a sua singeleza e magnífico esplendor. Sabará é aliás, por si só, uma grande interjeição, uma homenagem ao que há de mais belo.

A história de Sabará se confunde com a história de um homem: Manoel de Borba Gato, genro de Fernão Dias, o mais importante bandeirante paulista. Após a morte do sogro, em 1681, Borba Gato continuaria seu trabalho. Foi o primeiro a encontrar ouro nas margens do rio das Velhas. Concluía com este feito a missão de encontrar Sabarabuçu, a lendária serra repleta de ouro e pedras preciosas.
   
Tão logo se deu o achamento das minas, levas e levas de aventureiros se dirigiram ao eldorado. Borba Gato manteve uma lavra no arraial de Sant'Ana (Arraial Velho), fundado por bandeirantes nos idos de 1700. A Capela de Santo Antônio de Mouraria, demolida em 1920, talvez tenha sido construída a mando do bandeirante. Alguns historiadores defendem que ele foi enterrado lá em 1717. Esta capela serviu como Matriz no início do século XVIII. Através do Arraial Velho de Sant'Ana passava a antiga estrada que ligava a fervilhante Villa Real de Sabará ao arraial de Raposos e às Minas Gerais do Ouro Preto e Ribeirão do Carmo. Por esta e outras características o bucólico Arraial Velho, hoje pertencente a Sabará, tem um alto valor histórico. Foi um dos palcos da febre áurea que tomou a região.
         
Casa de Borba Gato - apesar do nome, é quase certo que não foi residência do famoso bandeirante

Santana Mestra, com detalhes em ouro (atribuída a Aleijadinho) - Museu do Ouro Museu do Ouro

Ânimos exaltados e uma terra sem muitas leis. Este era o cenário da incipiente sociedade mineira do início do século XVIII. Muitos conflitos surgiram envolvendo a posse do ouro. Borba Gato seria protagonista de um deles, já no ano de 1681. O rígido controle das lavras pela Coroa Portuguesa culminou no assassinato do fidalgo espanhol Dom Rodrigo de Castel Blanco. Acusado do crime, Borba Gato ficou foragido 18 anos, vivendo com os índios no vale do rio Sabará e cercanias, onde veio a encontrar mais ouro.

O mal-estar com a Corte durou até 1698, ano que, segundo historiadores, se deu o primeiro encontro do bandeirante com o então governador Arthur de Sá e Menezes. Na ocasião Borba Gato recebeu o título de Tenente-General do Mato. Sua influência e importância em toda a região foi aumentando. Em 1702, no segundo encontro com o governador, foi investido no cargo de Superintendente das Minas do Rio das Velhas. O fato aconteceu no arraial Santo Antônio do Bom Retiro da Roça Grande e selava o perdão definitivo em troca de um "Manifesto do Ouro". Nessa época o vizinho Arraial da Barra do Sabará era o mais populoso de Minas.

Igreja Santana - distrito de Arraial Velho (meados do séc. XVIII)          

No atributo de suas novas funções, Borba Gato repartia as lavras de ouro e veios d'água como regulamentava o Regimento. Fiscalizava ostensivamente o trânsito das tropas que vinham do sertão, confiscando cavalos, bois, negros e mercadorias. Falecendo em 1717, deixou o antigo Arraial da Barra do Sabará elevado à condição de Villa Real, próspero e com grande movimento.

Também no começo do século XVIII aconteceu o primeiro grande conflito pela posse do metal amarelo. Mesmo sendo descobridores do ouro, os paulistas perderam para os cariocas a jurisdição sobre as minas, causando enorme desconforto. Os paulistas chamavam os cariocas, portugueses e demais imigrantes de Emboabas, nome pelo qual ficou conhecido o conflito. A Guerra dos Emboabas se estendeu pelo vale do rio das Velhas, rio das Mortes e teve Sabará como um de seus palcos. A derrota dos paulistas fez com que sua influência diminuísse. Tanto é assim que não se vê o nome de Borba Gato, um paulista, na lista dos presentes ao Ato de Criação da Villa Real de N. Sra. da Conceição do Sabará, em 1711.
 

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